África do Sul 2010: legado no bolso da Fifa e seus parceiros

03/01/2012 14:36

COPA 2014

África do Sul 2010: legado no bolso da Fifa e seus parceiros

Os sul-africanos acreditaram nas promessas de mais emprego, turistas e investimentos bilionários que viriam com a Copa. Mas, segundo Eddie Cottle, autor do livro Copa do Mundo da África do Sul: um legado para quem?, nada disso se materializou. Estariam os brasileiros caindo na mesma armadilha?

por Alexandre Praça 

Fonte: http://diplomatique.uol.com.br/artigo.php?id=1041

 

É só mencionar a palavra Fifa, que o sangue sobe à cabeça de Eddie Cottle. Sul-africano apaixonado pelo continente onde nasceu, ele estudou a fundo as promessas e o verdadeiro legado da Copa de 2010. “A Fifa e seus parceiros conseguiram os maiores lucros de sua história na África sem pagar um tostão de impostos”, esbraveja.

Eddie fala sobre o assunto com conhecimento de causa. Ele foi o coordenador da campanha por trabalho decente entre os sindicatos da construção no país – catalisador da greve de 70 mil trabalhadores em todos os estádios da Copa em 2009. Quatro anos de militância e estudos renderam o livro South Africa’s World Cup: A Legacy For Whom? (Copa do Mundo da África do Sul: um legado para quem?), lançado este ano e sem data para ser publicado no Brasil.

Encontrei Eddie em um seminário com operários do setor em Kharkov, Ucrânia, uma das cidades-sede da Eurocopa 2012. Falamos sobre acumulação de capital, o medo das obras atrasadas, as promessas de infraestrutura e o que espera o Brasil depois que o carnaval do futebol passar.

 

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL– Começo com a pergunta do livro: a Copa do Mundo da África do Sul foi um legado para quem?

 

EDDIE COTTLE – Diziam que haveria um legado porque seria a primeira Copa do Mundo a ser realizada na África. Falavam que os ganhos seriam muito maiores que os investimentos públicos gastos para sediá-la. Também se dizia que, ao mostrar a África do Sul por meio da mídia mundial, o país receberia investimentos.

Houve ainda uma ideia de que, com o destaque de nossas belas paisagens, haveria uma explosão do turismo. Para os trabalhadores em geral e para o público, havia uma expectativa de que a Copa iria gerar emprego. Comentavam que haveria dinheiro fluindo para dentro do país por meio do turismo, dos investimentos, e assim por diante.

Mas a realidade é que a Copa não forneceu tudo o que a mídia prometia, nem em relação aos compromissos do documento de candidatura. O que vemos é que as copas do mundo são veículos para a acumulação de capital privado em uma escala global, em que a Fifa atua como facilitadora. Em termos de acumulação de capital, não há nada igual, nem mesmo nos velhos tempos do imperialismo ou na globalização moderna. A Copa recebe toda essa atenção precisamente porque os ultrapoderosos são aqueles que mais se beneficiam dela.

Para isso, eles fabricam mentiras descaradas para o público. Dizem que haverá grandes investimentos, que o país vai se beneficiar do turismo, que haverá emprego e [que o evento] trará toda essa glória para o país. Pelo menos o último ponto é verdadeiro. O país é deixado com a glória de sediar a Copa, mas a um custo significativo para a sociedade e os pobres em geral.

 

DIPLOMATIQUE– Então a Copa não deixa um legado?

 

EDDIE COTTLE – Se você quiser falar sobre o legado, eu diria o seguinte. Embora a Copa da África tenha sido um momento histórico, foi também ali que a Fifa e seus parceiros conseguiram obter os maiores lucros de sua história. Isso é simbólico porque representa uma relação neocolonial com o continente africano. As corporações multinacionais e essas grandes organizações sempre acham que podem fazer mais dinheiro com a África e com o chamado terceiro mundo.

Nesse sentido, houve um legado negativo. A Fifa e seus parceiros tiveram grandes lucros garantidos sem ter de pagar impostos para o país. Isso significou também que os sul-africanos precisaram oferecer muita coisa. Tivemos de garantir ruas “limpas” de pobreza. Tivemos de fazer novas leis para policiar efetivamente as profissionais do sexo. Significou que não poderia haver projetos de construção durante todo o mês da Copa, ou seja, perdemos uma contribuição para o PIB. Isso nunca é mencionado.

Há também a questão dos gastos deslocados. Se você analisar o fato de que houve uma despesa de 40 bilhões de rands [R$ 9 bilhões] e olhar para os dados de consumo do evento, verá que isso envolve o turismo dos próprios sul-africanos. Mais de 60% da renda do evento saiu do bolso dos locais. Então, onde está a evidência de que todo esse turismo iria trazer dinheiro para o país? Que os turistas iriam fornecer a maior parte da renda?

 

DIPLOMATIQUE – Explique isso melhor, por favor.

 

EDDIE COTTLE – Quando eu digo locais, quero dizer gastos dos habitantes do país com ingressos, alojamento em hotéis, transporte, compra de parafernálias como camisetas e lembrancinhas. A maior parte desses gastos foi feita pelos próprios sul-africanos. Isso basicamente quer dizer que o que realmente existe durante a Copa do Mundo é um deslocamento de consumo.

Dessa maneira, na verdade, nós perdemos dinheiro, porque grande parte desses recursos foi parar no bolso dos capitalistas mercantis da Fifa. Analisando um dos parceiros da Fifa, a Budweiser, você tem de consumir só o produto deles no estádio. Há também o cartão de crédito oficial, da Visa, e todas essas coisas. Por conta disso, há uma dívida crescente no âmbito nacional e internacional.

Esse nível de acumulação não é devidamente pesquisado. A maioria das análises se concentra na Fifa e seus parceiros comerciais, mas não no tipo de modelo que produz essa magnitude de acumulação. Por exemplo, quanta riqueza realmente deixa o país anfitrião por meio do envio de técnicos qualificados por parte dos parceiros comerciais? Quero dizer, os engenheiros de alto nível, mas também me refiro aos lucros. Existem os parceiros da Fifa na construção civil e firmas de arquitetos internacionais. Portanto, uma grande quantidade de dinheiro deixa o país por meio do envio de lucros ao exterior.

Nós importamos materiais, e isso não é descontado na conta final. Por exemplo, nos dois estádios mais espetaculares, o Soccer City e o da Cidade do Cabo, toda a cobertura foi importada. Acho que no Brasil o nível de gasto nesse tipo de coisa poderá ser ainda mais bizarro. Por isso é importante seguir o rastro do dinheiro. O que exatamente está sendo importado e o que está sendo feito por quem e onde. Não se podem determinar os custos e benefícios reais a menos que você faça esse tipo de análise. Tivemos milhões e milhões de fundos locais sendo canalizados ao exterior. Significa, portanto, que o dinheiro que deveria estar circulando na economia nacional não circulou.

 

DIPLOMATIQUE– No Brasil, toda a mídia está vendendo a ideia de que as arenas não estarão prontas a tempo para a Copa, e isso criará um constrangimento para o país. Essa é basicamente a preocupação de todos. Eu me pergunto se o mesmo tipo de pressão ocorreu na África do Sul.

 

EDDIE COTTLE – Bem, certamente isso ocorreu em duas ocasiões. A Fifa tentou apontar erros e para isso usou a pressão do prazo de conclusão dos estádios. Era um blefe para que eles impusessem seu sistema. Grande parte dos atrasos foi causada por mudanças no projeto arquitetônico. Era a Fifa querendo algo novo.

Por outro lado, isso nunca foi uma questão relacionada ao nível de produtividade. Os trabalhadores são sempre produtivos e de maneira até exagerada, porque esse evento mexia com o orgulho nacional. Apesar disso, os sindicatos compreenderam que os direitos do trabalho são direitos humanos fundamentais que não poderiam ser comprometidos nem mesmo em eventos dessa natureza. Isso nos ajudou muito a garantir os direitos dos trabalhadores em termos de salários e benefícios.

É um absurdo dizer que os estádios não poderão ser concluídos a tempo. Na África do Sul, algumas das arenas foram concluídas quatro meses antes do previsto. Todo o escarcéu da Fifa sobre a conclusão da infraestrutura na verdade é uma forma de pressionar os empreiteiros. Dessa maneira, a Fifa consegue garantir as mudanças que eles querem e quando querem.

 

DIPLOMATIQUE– E a mídia faz parte dessa jogada?

 

EDDIE COTTLE – Na realidade, quando estávamos tendo nossas greves, toda a mídia negativa veio de jornais internacionais. Colocavam manchetes como “A Copa do Mundo está em risco na África do Sul”. Nada disso era verdade. Eu sei disso porque estava meticulosamente acompanhando o andamento das obras junto com os municípios.

A grande questão é como todos esses diferentes capitais se acumulam. O Estado subsidia o evento, e os capitais nacionais e internacionais compartem o bolsão de fundos. O que você tem então é um processo global no qual a grande mídia imediatamente articula a posição negativa para atropelar os trabalhadores. Dependerá dos sindicatos, partidos políticos e outros grupos sociais formular uma resposta à forma como essas coisas são articuladas.

 

DIPLOMATIQUE– Em termos de legado positivo, o governo está dizendo que esta é a oportunidade de realizar os investimentos na infraestrutura de que o Brasil sempre precisou. Essas promessas foram cumpridas na África do Sul?

 

EDDIE COTTLE –É sempre importante separar o que é investimento para a Copa e o que é infraestrutura. O que se está fazendo é confundir as duas coisas. Sempre existem planos para infraestrutura, sejam eles de estradas, aeroportos ou outros tipos de sistema de transporte, que, naturalmente, são necessários para a economia. O que aconteceu na África foi que quase todas as iniciativas se voltavam para a Copa. Na verdade, o que é feito é adiantar os investimentos em infraestrutura.

Há consequências sobre o dinheiro gasto naquilo que não é de interesse nacional. Por exemplo, nós gastamos dinheiro em estádios que se tornaram elefantes brancos. Cerca de 4,5 bilhões de rands [R$ 1 bilhão] foram gastos no Green Point, na Cidade do Cabo, mas não precisávamos daquele estádio. Foi um desperdício de infraestrutura.

Eu acho que se pode dizer sim à infraestrutura, mas ficar de olho em como se gasta esse dinheiro e para qual finalidade. Porque isso compõe o espetáculo da Copa do Mundo. É uma espécie de grande carnaval, e tudo é justificável para realizá-lo. Então, você precisa colocar no estádio todas essas luzes, cores e roupagens para que ele não se pareça aos da Alemanha. Tivemos uma competição interminável sobre qual cidade tinha o estádio mais extravagante e luxuoso, sem consideração às necessidades sociais.

 

DIPLOMATIQUE– Que consequências esse desperdício trouxe para o país?

 

EDDIE COTTLE – Neste momento, a África do Sul e os países vizinhos estão perdendo mais investimentos locais do que recebendo investimento estrangeiro direto. Isso porque a Copa do Mundo não traz investimento estrangeiro direto. O que se cria é um subsídio para pessoas visitarem o país. Mas não se investe realmente. Há também o problema do turismo neste período de contração econômica, com desemprego e salários diminuindo. Assim, não se concretizou o número de turistas previstos durante nem depois da Copa.

Outro ponto: é justificável aplicar esse volume de recursos com base em uma suposição? Porque é suposição, não ciência. Você não está dizendo: “Se eu gastar 1 bilhão, garanto que nos próximos dez anos vamos ter 200 milhões de turistas” e, portanto, seria possível calcular a quantidade de dinheiro que vamos ganhar. Isso não é possível. É pura economia da suposição.

Eu diria que não vale a pena gastar todo esse dinheiro. É realmente parte da construção da marca da Fifa e de seus parceiros. É parte do plano de criação de um espetáculo para exportação e, dessa forma, você chama o interesse do público e a atenção para a Copa do Mundo. Essencialmente, o Estado precisa justificar essa quantidade enorme de gastos.

 

DIPLOMATIQUE– No caso específico dos estádios, quais são os problemas financeiros causados por essa carga de investimentos?

 

EDDIE COTTLE – Vão dizer que agora o país possui a infraestrutura necessária e que não haverá problemas para manter todos os estádios. Mas não dirão que daqui a quinze anos será necessário substituir o teto do estádio, e isso terá um custo enorme. Porque aí terão de pedir que o fabricante da Alemanha reinvista naquele estádio.

Em segundo lugar, haverá mais concorrência por parte dos proprietários do estádio para receber os subsídios dos municípios. Por exemplo, eu sei que no Brasil o Estado subsidia 60% dos investimentos. Isso quer dizer que o governo é uma das partes mais interessadas. Por isso, tem o dever de garantir a sustentabilidade do investimento, senão haverá uma comoção pública. Significa também que o Estado tem de tirar dinheiro de investimentos sociais.

Em terceiro, há o desenvolvimento desigual e desarticulado. Isso acontece, por exemplo, com outras instalações esportivas menores. O novo investimento obriga que todos os jogos sejam realizados no novo estádio. É o que está ocorrendo na África do Sul agora. Existiam alguns estádios menores muito bons que agora não estão sendo usados porque é preciso usar a nova arena. Eu prevejo claramente que o Brasil terá problemas financeiros particularmente com os estádios, e isso irá gerar preocupações no futuro próximo.

 

DIPLOMATIQUE– Se você pudesse dar um conselho aos sindicatos no Brasil sobre o que deu errado na África do Sul e você faria diferente, qual seria?

 

EDDIE COTTLE – O primeiro problema foi que os sindicatos não entenderam as implicações econômicas do evento. Eles também caíram nas promessas da Copa do Mundo e o que ela iria trazer para os trabalhadores. Isso acabou definindo o papel dos sindicatos e suas demandas em relação ao evento. Nós começamos nesse processo sem entender direito a articulação do dinheiro, como ele iria circular e beneficiar a nação. Os únicos dados eram aqueles produzidos pelos entusiastas da Copa e pelos institutos econômicos e suas mentiras descaradas.

Em segundo lugar, no que diz respeito às greves, como foram transmitidas internacionalmente. Toda greve é colocada em nível internacional. E isso é uma grande oportunidade. Nós tivemos muita atenção da mídia internacional, foi inacreditável. A maneira de entender esse evento irá moldar como se podem relacionar as realidades sociais dos trabalhadores com essas percepções que a mídia nacional e internacional irão gerar em relação ao público. Você tem de agarrar a mídia pelos chifres.

 

Alexandre Praça

Jornalista